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quinta-feira, 4 de junho de 2026

O Paradoxo da Inteligência Artificial: Quanto Mais Digital o Mundo se Torna, Mais Depende é dos Recursos Físicos


 Em outubro de 2025, dei início a análise de um investimento para a aquisição de um novo servidor para a minha empresa, sendo que o orçamento total, já com IVA, andava na ordem dos 25.000 euros. Esse investimento apenas seria concretizado no final do primeiro trimestre de 2026 e, assim, voltei a contactar o meu fornecedor, contando que o ajuste ao investimento seria residual. Mas não! Deparei-me com um novo orçamento, exactamente para o mesmo equipamento, na ordem dos 50 000 euros!

 

Perante esta diferença inesperada, parei para refletir sobre o que estaria verdadeiramente a acontecer na economia global, dando, assim, origem a este artigo…

 

Porque é que a revolução mais digital da nossa história pode desencadear um novo superciclo de commodities

 

Durante décadas, investidores, economistas e empresários habituaram-se à ideia de que a economia caminhava para uma crescente desmaterialização. A internet, o software e os serviços digitais pareciam reduzir progressivamente a importância dos ativos físicos. Contudo, a revolução da Inteligência Artificial está a demonstrar precisamente o contrário.

A tecnologia mais avançada da nossa história moderna poderá devolver protagonismo aos recursos mais básicos da economia: energia, cobre, prata, ouro, silício, alumínio, aço e terras raras. Enquanto os mercados concentram a sua atenção nos algoritmos, está a ocorrer uma corrida global à construção de centros de dados (data centers…), redes elétricas, infraestruturas energéticas (voltando as centrais nucleares à ribalta…) e capacidade computacional.

Desde os anos 90, a globalização permitiu reduzir custos de produção e conter a inflação. A produção deslocou-se para regiões de menor custo, as cadeias de abastecimento tornaram-se altamente eficientes e a abundância de bens levou muitos a acreditar que a escassez pertencia ao passado. Hoje, como já se sabe, essa realidade está a mudar.

As tensões geopolíticas, a rivalidade entre grandes potências, a necessidade de autonomia energética e a corrida tecnológica estão a provocar uma profunda transformação económica. A eficiência deixou de ser o único objetivo; a segurança de abastecimento e a resiliência estratégica tornaram-se igualmente importantes.

A Inteligência Artificial é o principal catalisador desta mudança. O investimento privado global em IA atingiu níveis sem precedentes, refletindo a convicção de que esta tecnologia irá transformar praticamente todos os setores económicos.

Para termos uma ideia, o investimento privado global em IA, mais do que duplicou, só em dois anos e estamos a falar de investimentos na ordem das centenas de milhares de milhões de dólares (para termos uma noção da escala, o PIB anual português situa-se na ordem dos 300 mil milhões de dólares por ano).


Investimento Global em Inteligência Artificial

Fonte: Stanford University – AI Index Report 2026.

 Ainda assim, o aspeto mais relevante não é o montante investido, mas a sua natureza. A maioria destes recursos destina-se a infraestruturas físicas: centros de dados, semicondutores, energia e sistemas de armazenamento.


As grandes tecnológicas compreenderam rapidamente que o futuro da IA depende tanto da capacidade computacional como da qualidade dos algoritmos.


Empresas como a Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta estão a anunciar programas de investimento que, em conjunto, poderão ultrapassar várias centenas de milhares de milhões de dólares em infraestruturas ligadas à Inteligência Artificial. Trata-se de um dos maiores ciclos de investimento da história empresarial moderna.


A Corrida das Big Tech

Fonte: Dados públicos de investimento (CapEx) divulgados por Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta para 2025.



Existe, contudo, um erro que muitos investidores continuam a cometer: acreditam que a IA é apenas software. Na realidade, a IA é também eletricidade, cobre, prata, silício, aço, sistemas de refrigeração e centros de dados. Cada novo modelo exige mais capacidade computacional. Cada aumento de capacidade computacional exige mais recursos físicos, criando uma procura crescente por infraestruturas e matérias-primas.


O Regresso das Commodities


Durante anos, as commodities foram vistas como setores maduros e pouco atrativos quando comparados com a tecnologia. A IA está a alterar essa perceção. O cobre é essencial para as redes elétricas. A prata é utilizada em aplicações tecnológicas e energéticas. O silício é a base dos semicondutores. As terras raras são indispensáveis para múltiplos componentes avançados.

Ao mesmo tempo, a transição energética, os veículos elétricos e a digitalização da economia competem pelos mesmos recursos. O problema é que a oferta não cresce à mesma velocidade da procura. Abrir uma nova mina pode demorar mais de uma década. Construir refinarias ou expandir redes elétricas exige investimentos avultados e longos períodos de execução.

Uma Nova Pressão Inflacionista?


Se a procura por recursos estratégicos continuar a crescer mais rapidamente do que a oferta, poderemos assistir a uma pressão estrutural sobre os preços dos ativos reais. Não se trata de uma previsão inevitável, mas de um cenário bem plausível.


Já aqui no nosso “burgo” - As habitações modernas incorporam grandes quantidades de cobre, aço, alumínio, silício e, cada vez mais, componentes eletrónicos. O mesmo acontece com automóveis, equipamentos industriais e infraestruturas energéticas. Caso os custos destes materiais aumentem de forma persistente, os custos de produção tenderão igualmente a aumentar.

 

Por isso, contrariamente ao que se diz nos nossos meios de comunicação social, não são apenas as questões de natureza legal e/ou burocrática, o investimento estrangeiro, o custo da mão-de-obra e a carga fiscal que estão a fazer subir os preços da habitação. O problema é bem mais completo e estrutural.


Afinal, o que significa tudo isto para quem é empresário?


Os empresários portugueses devem acompanhar estas tendências com atenção. Num mundo potencialmente mais inflacionista e mais dependente de recursos físicos, a produtividade, a eficiência energética, a liquidez e a capacidade de adaptação serão, mais do que nunca, fatores decisivos.


As empresas que conseguirem antecipar estas mudanças estarão melhor posicionadas para proteger margens, preservar património e identificar novas oportunidades de crescimento.

A forte pressão inflacionista sobre os investimentos em equipamentos informáticos vai trazer novos desafios e poderá surgir uma nova vaga de dificuldades empresariais daquelas empresas que não se preparam para o novo mundo que nos está a bater à porta.


Em suma

A Inteligência Artificial poderá ser recordada como a maior revolução tecnológica do século XXI. Contudo, o impacto económico nas nossas vidas vai muito além da componente software.

A revolução mais digital da história está a aumentar a importância do mundo físico. Energia, matérias-primas e infraestruturas poderão assumir um papel central na criação de riqueza durante a próxima década e uma quantidade crescente de recursos financeiros está a ser direcionada para essas áreas, em detrimento de outras.



Enquanto a maioria dos investidores observa os algoritmos, os mais atentos começam a observar o cobre, a prata, o silício, a energia e as infraestruturas. Porque, no final, toda a inteligência artificial do mundo continua dependente de recursos físicos, que são bem reais.

 

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