Em outubro de 2025, dei início a análise de um investimento para a aquisição de um novo servidor para a minha empresa, sendo que o orçamento total, já com IVA, andava na ordem dos 25.000 euros. Esse investimento apenas seria concretizado no final do primeiro trimestre de 2026 e, assim, voltei a contactar o meu fornecedor, contando que o ajuste ao investimento seria residual. Mas não! Deparei-me com um novo orçamento, exactamente para o mesmo equipamento, na ordem dos 50 000 euros!
Perante esta diferença inesperada, parei para
refletir sobre o que estaria verdadeiramente a acontecer na economia global,
dando, assim, origem a este artigo…
Porque é que a revolução mais digital da
nossa história pode desencadear um novo superciclo de commodities
Durante décadas, investidores, economistas e
empresários habituaram-se à ideia de que a economia caminhava para uma
crescente desmaterialização. A internet, o software e os serviços digitais
pareciam reduzir progressivamente a importância dos ativos físicos. Contudo, a
revolução da Inteligência Artificial está a demonstrar precisamente o
contrário.
A tecnologia mais avançada da nossa história
moderna poderá devolver protagonismo aos recursos mais básicos da economia:
energia, cobre, prata, ouro, silício, alumínio, aço e terras raras. Enquanto os
mercados concentram a sua atenção nos algoritmos, está a ocorrer uma corrida
global à construção de centros de dados (data centers…), redes
elétricas, infraestruturas energéticas (voltando as centrais nucleares à
ribalta…) e capacidade computacional.
Desde os anos 90, a globalização permitiu reduzir
custos de produção e conter a inflação. A produção deslocou-se para regiões de
menor custo, as cadeias de abastecimento tornaram-se altamente eficientes e a
abundância de bens levou muitos a acreditar que a escassez pertencia ao
passado. Hoje, como já se sabe, essa realidade está a mudar.
As tensões geopolíticas, a rivalidade entre
grandes potências, a necessidade de autonomia energética e a corrida
tecnológica estão a provocar uma profunda transformação económica. A eficiência
deixou de ser o único objetivo; a segurança de abastecimento e a resiliência
estratégica tornaram-se igualmente importantes.
A Inteligência Artificial é o principal
catalisador desta mudança. O investimento privado global em IA atingiu níveis
sem precedentes, refletindo a convicção de que esta tecnologia irá transformar
praticamente todos os setores económicos.
Para termos uma ideia, o investimento privado
global em IA, mais do que duplicou, só em dois anos e estamos a falar de
investimentos na ordem das centenas de milhares de milhões de dólares (para termos uma
noção da escala, o PIB anual português situa-se na ordem dos 300 mil milhões de dólares por ano).
Investimento Global em Inteligência
Artificial
Fonte: Stanford University – AI Index
Report 2026.
As grandes tecnológicas compreenderam rapidamente que o futuro da IA depende
tanto da capacidade computacional como da qualidade dos algoritmos.
Empresas como a Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta estão a anunciar programas
de investimento que, em conjunto, poderão ultrapassar várias centenas de
milhares de milhões de dólares em infraestruturas ligadas à Inteligência
Artificial. Trata-se de um dos maiores ciclos de investimento da história
empresarial moderna.
A Corrida das Big Tech
Fonte: Dados públicos de
investimento (CapEx) divulgados por Amazon, Microsoft, Alphabet e Meta para
2025.
Existe, contudo, um erro que muitos investidores continuam a cometer: acreditam
que a IA é apenas software. Na realidade, a IA é também eletricidade, cobre,
prata, silício, aço, sistemas de refrigeração e centros de dados. Cada novo
modelo exige mais capacidade computacional. Cada aumento de capacidade
computacional exige mais recursos físicos, criando uma procura crescente por
infraestruturas e matérias-primas.
O Regresso das Commodities
Durante anos, as commodities foram vistas como setores maduros e pouco
atrativos quando comparados com a tecnologia. A IA está a alterar essa
perceção. O cobre é essencial para as redes elétricas. A prata é utilizada em
aplicações tecnológicas e energéticas. O silício é a base dos semicondutores.
As terras raras são indispensáveis para múltiplos componentes avançados.
Ao mesmo tempo, a transição energética, os veículos elétricos e a digitalização
da economia competem pelos mesmos recursos. O problema é que a oferta não
cresce à mesma velocidade da procura. Abrir uma nova mina pode demorar mais de
uma década. Construir refinarias ou expandir redes elétricas exige
investimentos avultados e longos períodos de execução.
Uma Nova Pressão Inflacionista?
Se a procura por recursos estratégicos continuar a crescer mais rapidamente do
que a oferta, poderemos assistir a uma pressão estrutural sobre os preços dos
ativos reais. Não se trata de uma previsão inevitável, mas de um cenário bem plausível.
Já aqui no nosso “burgo” - As habitações modernas incorporam grandes
quantidades de cobre, aço, alumínio, silício e, cada vez mais, componentes
eletrónicos. O mesmo acontece com automóveis, equipamentos industriais e
infraestruturas energéticas. Caso os custos destes materiais aumentem de forma
persistente, os custos de produção tenderão igualmente a aumentar.
Por isso, contrariamente ao que se diz nos nossos
meios de comunicação social, não são apenas as questões de natureza legal e/ou
burocrática, o investimento estrangeiro, o custo da mão-de-obra e a carga
fiscal que estão a fazer subir os preços da habitação. O problema é bem mais
completo e estrutural.
Afinal, o que significa tudo isto para
quem é empresário?
Os empresários portugueses devem acompanhar estas tendências com atenção. Num
mundo potencialmente mais inflacionista e mais dependente de recursos físicos,
a produtividade, a eficiência energética, a liquidez e a capacidade de
adaptação serão, mais do que nunca, fatores decisivos.
As empresas que conseguirem antecipar estas mudanças estarão melhor
posicionadas para proteger margens, preservar património e identificar novas
oportunidades de crescimento.
A forte pressão inflacionista sobre os
investimentos em equipamentos informáticos vai trazer novos desafios e poderá
surgir uma nova vaga de dificuldades empresariais daquelas empresas que não se
preparam para o novo mundo que nos está a bater à porta.
Em suma
A Inteligência Artificial poderá ser recordada como a maior revolução
tecnológica do século XXI. Contudo, o impacto económico nas nossas vidas vai
muito além da componente software.A revolução mais digital da história está a aumentar a importância do mundo físico. Energia, matérias-primas e infraestruturas poderão assumir um papel central na criação de riqueza durante a próxima década e uma quantidade crescente de recursos financeiros está a ser direcionada para essas áreas, em detrimento de outras.
Enquanto a maioria dos investidores observa os algoritmos, os mais atentos
começam a observar o cobre, a prata, o silício, a energia e as infraestruturas.
Porque, no final, toda a inteligência artificial do mundo continua dependente
de recursos físicos, que são bem reais.


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