Já entrámos há algum tempo numa nova era de inflação — E quase ninguém está a agir como se isso fosse verdade
A maioria das pessoas e empresas continua a olhar para a inflação como um fenómeno temporário, como um acontecimento normal de subida e descida de preços mas sempre com uma expectativa (ou esperança…) de estabilização no curto/médio prazo. Mas essa leitura está desactualizada. O que estamos a viver actualmente não é um ciclo inflacionista clássico. É o resultado de várias forças profundas que estão a alterar o funcionamento da economia global e que dificilmente irão desaparecer no curto prazo.
Durante mais de uma década, o sistema financeiro foi sustentado por políticas monetárias altamente expansionistas, isto é, a impressão de dinheiro do Banco Central Europeu para dar resposta a problemas concretos das populações, tais como: a já longínqua crise do Euro e, mais recentemente, a Pandemia COVID-19. O Banco Central Europeu (como outros bancos), injectaram liquidez na economia em níveis sem precedentes, mantendo as taxas de juro de referência artificialmente baixas, estimulando o crédito e o consumo em geral. Esse excesso de dinheiro não desapareceu, apenas demorou algum tempo a refletir-se na economia real. E quando o fez, traduziu-se numa pressão inflacionista mais persistente do que inicialmente previsto.
Ao mesmo tempo, o modelo de globalização que durante anos ajudou a conter os preços, produzindo-se bens e serviços em países com custos de contexto extraordinariamente baixos, permitindo trazer, posteriormente, esses mesmos produtos para os mercados occidentais, onde as pessoas mantinham um elevado poder de compra, está a acabar e, inclusive, a inverter-se. Os países que antes eram extremamente pobres, actualmente estão a tornar-se ricos, com uma classe média cada vez mais pujante enquanto o occidente continua com uma tendência de perda de importância na economia global.
A produção barata e eficiente, concentrada em determinadas regiões do mundo, está a dar lugar a cadeias de abastecimento mais curtas, mais seguras — e significativamente mais caras. No fundo as grandes cadeias de abastecimento foram quebras e está em curso o surgimento de uma nova ordem mundial, não se sabendo ainda ao certo quais as reais consequências de tudo isto. As tensões geopolíticas, a relocalização industrial e necessidade de resiliência estão a aumentar os custos de produção de forma estrutural. O que antes era eficiência global é, agora, redundância estratégica. E essa redundância tem um preço.
A energia, é base de toda a atividade económica e tornou-se, novamente, noutro factor crítico. A transição energética, combinada com instabilidade geopolítica e limitações na oferta, introduziu uma nova realidade de custos mais elevados e mais voláteis. Quando a energia sobe, toda a economia sente o impacto — desde a produção ao transporte, passando pelos serviços. Este efeito em cadeia contribui para uma inflação que não é pontual, mas sistémica.
A isto junta-se a pressão salarial. Num contexto de subida generalizada de preços, os trabalhadores exigem naturalmente rendimentos mais elevados para manter o seu nível de vida, ao que se junta a crescente falta de mão de obra (quer pela saída de pessoas qualificadas, quer pelo envelhecimento natural da população) No entanto, esses aumentos nem sempre são acompanhados por ganhos de produtividade, às vezes não acompanha se quer a inflação. O resultado é um ciclo difícil de quebrar: custos mais elevados para as empresas, aumento de preços para compensar e nova pressão inflacionista. Não é um episódio isolado — é um mecanismo que se retroalimenta tornando-se num círculo vicioso
Por fim, há um factor muitas vezes ignorado: o nível de endividamento global. Estados, empresas e famílias operam hoje com níveis de dívida historicamente elevados e Portugal, apesar da redução da dívida ao longo destes últimos anos, continua a não ser excepção. Neste contexto, a inflação desempenha um papel silencioso, mas funcional (acaba por ser útil aos governos!) — reduz o peso real dessa dívida ao longo do tempo. Isso limita a margem de atuação das autoridades monetárias para combater a inflação de forma agressiva, porque o custo de o fazer pode ser demasiado elevado para o sistema (imaginem, por exemplo, o que seria em vez de aumentar a taxa de referência da Euribor em apenas 0.5% para 2,50% ou 3%, como forma de combater a inflação!) .
O resultado de todas estas forças combinadas é uma mudança de paradigma. A inflação deixou de ser um desvio temporário para passar a fazer parte da estrutura da economia. Convém,assim, que empresas e famílias o incorporem de forma consciente nas suas decisões de consumo e de investimento.
E é aqui que surge o verdadeiro ponto de viragem.
Num contexto em que o dinheiro perde valor de forma consistente, a forma como se investe deixa de ser uma escolha opcional — passa a ser uma necessidade estratégica. Não investir, ou investir sem critério, equivale a aceitar uma perda garantida ao longo do tempo. A questão já não é apenas “como ganhar dinheiro” mas, sobretudo, “como evitar perdê-lo em termos reais”.
Isto implica uma mudança clara de mentalidade. O foco deve estar em ativos que consigam, direta ou indiretamente, acompanhar ou superar a inflação. Empresas com capacidade de ajustar preços, ativos reais como o imobiliário, participação em mercados que beneficiam de crescimento económico ou estruturas de investimento diversificadas deixam de ser opções tácticas para se tornarem componentes essenciais de preservação de valor. Ao mesmo tempo, a liquidez excessiva — muitas vezes vista como segurança — transforma-se numa exposição silenciosa à perda de poder de compra.
Mas mais importante do que escolher ativos isolados é construir uma estratégia. Porque num ambiente inflacionista, decisões avulsas tendem a falhar. É a consistência, a diversificação e a capacidade de adaptação ao longo do tempo que determinam o resultado. Investir deixa de ser um exercício pontual e passa a ser um processo contínuo de gestão de risco e proteção de património.
Apesar disso, muitas empresas continuam a gerir com base num passado que já não existe, mantendo modelos de preço desajustados, ignorando o impacto da inflação nas suas margens. E muitas famílias continuam a manter poupanças paradas, avaliando a sua situação financeira em termos nominais e não reais. Em ambos os casos, o efeito é o mesmo: perda gradual do valor do dinheiro. Desvalorização do património financeiro.
E bom que se vá tomando consciência que não estamos, de facto, perante uma fase passageira. Estamos perante uma mudança de regime. A inflação deixou de ser um fenómeno ocasional e passou a integrar a lógica do sistema económico. Funciona como mais um “imposto” que todos nós temos que pagar. E isso exige adaptação, uma estratégica...
A questão já não é perceber quando é que a inflação vai desaparecer? A questão é perceber que ela veio para ficar e que medidas posso tomar para mitigar esse facto.
Num mundo onde o dinheiro perde valor em silêncio, ignorar a inflação não é neutral — é uma decisão com custo alto que impactará as gerações presentes e futuras.

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