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segunda-feira, 11 de maio de 2026

Europa vs Estados Unidos

A Divergência Económica Está a Aumentar


Durante grande parte do século XX, a Europa e os Estados Unidos foram vistos como os dois grandes pilares económicos do mundo ocidental. Apesar das diferenças políticas e sociais, existia a perceção de que ambos os blocos manteriam níveis relativamente próximos de prosperidade, produtividade e crescimento económico.

No entanto, os últimos 15 anos mostram uma realidade muito diferente. Os Estados Unidos conseguiram acelerar fortemente a sua economia, enquanto a Europa entrou numa trajetória de crescimento lento, menor competitividade e perda gradual de dinamismo económico.

O gráfico seguinte demonstra a evolução do PIB acumulado desde 2010. A diferença entre as duas linhas mostra claramente que os EUA não cresceram apenas mais rapidamente — conseguiram criar uma dinâmica económica cumulativa muito superior à europeia.

 

Fonte: World Bank Open Data, OECD e European Commission Economic Forecasts.

Enquanto a economia americana cresceu mais de 70% neste período, a Europa registou aproximadamente metade desse crescimento. E quando pequenas diferenças anuais se acumulam durante muitos anos, o resultado transforma-se num fosso estrutural de riqueza.

Mas o dado verdadeiramente importante surge quando analisamos o PIB per capita (a capacidade de produção de riqueza).

Actualmente, o PIB per capita dos Estados Unidos aproxima-se dos 85 mil dólares anuais. Na União Europeia, a média permanece próxima dos 40 a 45 mil dólares. Isto significa que um cidadão americano produz, em média, quase o dobro da riqueza económica de um europeu.

Mesmo a Alemanha — frequentemente considerada o motor económico europeu — apresenta um PIB per capita equivalente apenas a estados americanos intermédios. Em termos relativos, a riqueza média alemã aproxima-se mais de estados como South Carolina ou Oklahoma do que de estados altamente produtivos como California, Massachusetts ou Washington.

Esta diferença não resulta apenas do tamanho da economia americana. Resulta sobretudo da produtividade.

Os Estados Unidos conseguiram transformar inovação, tecnologia e capital em produtividade económica de forma muito mais eficiente do que a Europa. Isto é particularmente visível nos setores tecnológicos, inteligência artificial, semicondutores, software, cloud computing e biotecnologia.

Hoje, as maiores empresas do mundo são maioritariamente americana.Quem é que não conhece a Apple, a Microsoft, a NVIDIA, a Amazon e a Alphabet, sem falar de muitas outras, como por exemplo a Netflix.

Estas empresas representam biliões de dólares de capitalização bolsista e geram níveis de valor acrescentado por trabalhador extremamente elevados.

Na Europa, apesar de existirem excelentes empresas industriais e tecnológicas, existe enorme dificuldade em criar gigantes globais comparáveis e uma das principais razões para esta diferença encontra-se nos mercados de capitais.

Os EUA possuem o sistema financeiro mais profundo e dinâmico do mundo. Existe enorme disponibilidade de venture capital, private equity, fundos institucionais e mercados bolsistas altamente líquidos.

Na prática, isto significa que uma startup americana consegue captar centenas de milhões — ou mesmo milhares de milhões — para crescer muito rapidamente.

Na Europa, pelo contrário: O financiamento continua excessivamente dependente da banca tradicional; Existe uma menor disponibilidade de capital de risco; Os mercados permanecem muito fragmentados e, pior, Existe maior aversão ao risco. E, sem risco, não há inovação.

O resultado é claro: muitas empresas europeias inovadoras acabam por crescer muito lentamente e acabam por ter duas alternativas: Ou procuram financiamento nos EUA, ou então,  acabam por ser adquiridas antes de atingirem a escala global.

Mas existe, ainda, outro problema estrutural frequentemente ignorado: O fator tempo.

Nos EUA, os processos de aprovação empresarial, industrial ou imobiliária tendem a ser mais rápidos e previsíveis. Em muitos estados americanos, projetos industriais conseguem aprovação em poucos meses o que na europa isso não passa além de um sonho ou de ficção científica!

Na Europa, os prazos de licenciamento são frequentemente muito superiores.

Segundo dados históricos do World Bank Doing Business: Vários países europeus ultrapassam  em média mais de 150 para o licenciamento de um porjecto imobiliário; Alguns projetos industriais podem aproximar-se de um ano.

Isto tudo porque o Estado é o principal entrave ao deenvolvimento destes projectos e, porque não dizer, à inovação. Com múltiplas entidades públicas participam no processo, a regulamentação e pareceres administrativos aumentam drasticamente os custos de contexto.

Numa economia moderna, a velocidade tornou-se uma vantagem competitiva crítica. Empresas que demoram mais tempo a obter licenciamento atrasam receitas, aumentam custos financeiros e perdem competitividade global.

Na prática, burocracia funciona como um imposto invisível sobre crescimento económico.

A tudo isto soma-se outro factor negativo estrutural europeu: a elevada dependência dos agentes económicos do Estado.

Grande parte da atividade económica europeia depende fortemente de: Subsídios públicos; Incentivos governamentais; Fundos europeus; Validações administrativas; E regulamentação muito extensa, complexa e sem saber muito bem para quê.

Isto cria uma economia menos dinâmica e mais dependente da decisão política.

Outro indicador extremamente importante é a inovação tecnológica.

O gráfico seguinte demonstra a evolução do índice de patentes desde 2010. Os EUA aceleraram significativamente a criação de propriedade intelectual e inovação aplicada, enquanto a Europa evoluiu a um ritmo bastante mais lento, fruto de tudo o que aqui já foi referido.

 


Fonte: OECD Intellectual Property Statistics, WIPO e European Patent Office.

As patentes representam inovação com potencial económico futuro. Economias que inovam mais, tendem a gerar maior produtividade, salários mais elevados e crescimento económico sustentável.

A diferença também é visível na produtividade global da economia.

O gráfico demonstra que a produtividade americana cresceu de forma muito superior à europeia ao longo dos últimos anos. Este ponto é absolutamente central porque produtividade é o principal motor do crescimento sustentável no longo prazo. Sem produtividade, não vale a pena ter ilusões: Os salários reais estagnam, o crescimento económico abranda, o investimento diminui e o próprio Estado Social torna-se financeiramente mais difícil de sustentar.

O problema europeu não está na ausência de talento ou qualidade de vida. A Europa continua a possuir boas universidades, elevada estabilidade institucional e forte protecção social. O verdadeiro problema está na dificuldade em transformar essas vantagens em crescimento económico acelerado.

Enquanto que os EUA criaram um sistema económico orientado para: a velocidade, o foco no capital, na inovação, no prémio para quem arrisca e no crescimento empresarial, a Europa tem um sistema orientado para: a estabilidade, para a regulação, para a proteção institucional e equilíbrio social.

Nenhum modelo é perfeito. Mas os resultados económicos dos últimos 15 anos mostram claramente qual dos dois conseguiu gerar mais produtividade, riqueza e capacidade de adaptação. No longo prazo, nenhuma economia consegue redistribuir a riqueza que não consegue primeiro criar e, no fundo, é isso que se passa também é Portugal.

Os políticos anunciam aumentos “administrativos” dos salários mas, na realidade, esses aumentos não se traduzem em aumentos de níveis de riqueza para a população, que sente cada vez ais estar a empobrecer. No fundo, não tem existido aumentos reais dos salários…

A Europa enfrenta, assim, hoje um dos maiores desafios económicos da sua história recente. Se quiser inverter a perda de competitividade face aos Estados Unidos, terá inevitavelmente de acelerar reformas estruturais profundas. Redução da burocracia, simplificação dos licenciamentos, desenvolvimento de mercados de capitais mais fortes, aumento da produtividade e maior capacidade de financiar inovação serão fatores decisivos para recuperar esse dinamismo económico. Numa economia global cada vez mais tecnológica e competitiva, a velocidade, a eficiência e capacidade de adaptação passaram a ser elementos centrais de crescimento de qualquer Estado.

Apesar dos desafios imensos, a Europa continua a possuir algumas vantagens extraordinárias, tais como: Talento altamente qualificado, alguma estabilidade institucional, capacidade industrial, universidades de qualidade e um enorme mercado interno. O desafio não é a falta de potencial, mas sim as dificuldades em transformar essas vantagens em crescimento económico sustentado. 

Se a Europa conseguir equilibrar competitividade da económica com o seu modelo social, esta região do planeta poderá voltar a ganhar, novamente, relevância global. Caso contrário, iremos continuar a  assistir a um aumento gradual da divergência económica face aos Estados Unidos nas próximas décadas.


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